quarta-feira, 28 de outubro de 2015

"Só a bailarina que não tem..."

Todo mundo tem um lado meio torto, um defeito bobo, o direito ao "saco cheio", só a bailarina que não tem. Todo mundo tem o dia da farra, o dia de encher a cara e soltar palavrão, a bailarina não. Quem nunca teve uma pereba na perna, uma mania chata, uma espinha no nariz ou várias na testa, um cravo interno, olheiras cavadas, bafo de leão, unha encravada, um/uns fio(s) de cabelo branco, um dedo meio torto ou saiu atrasada(o) com a roupa amassada? Pobre da bailarina, tão arrumadinha, tão doce, pudica, estudiosa e cheirosa, não há espaço para imperfeição. A bailarina não goza, não se atrasa, não demora, não se esquece, não balança nem cai. Não desiste, não chora, não erra e nem faz nada. Uma mocinha tão quietinha que parece até de mentirinha. Ah bailarina que se cansa com tanta cobrança desse mundo de gente chata e idiota que pensa que para conseguir estar na ponta do pé não pode ter chulé, passou dos 30 tem que casar, não pode usar roupa curta, não pode xingar, tem que saber cozinhar, não pode arrotar, peidar é um pecado, não pode descer do salto, blá blá blá... Quantas bailarinas fingem por aí, todas maquiadas, esticadas, falsificadas? Escondem os seus defeitos feios nos efeitos dos cosméticos, na imagem de "mulher honesta" recatada, escondem os seus medos por detrás de risadas desesperadas? A bailarina que dança com a verdade não dribla a sua felicidade para satisfazer o aroma de deusa, ela sabe que para se dançar com a felicidade é preciso se despir das balelas, das bajulações e dos aplausos que enganam o seu ego. E então ela chora, esquece-se da vaidade e das futilidades que a desconforta, desiste de alimentar o seu ego para saciar a sua auto-estima que enchia a sua barriga de orgulho. Enxerga que não é disso que ela precisa, pois já não faz sentido viver a vida de um espetáculo forjado à espera da congratulação da platéia. E então ela vai embora, sem buscar aplausos e sorrisos falsos, sem o peso e o vazio da frustração de não ter agradado. A bailarina abandona o palco, deixa de ser o centro das atenções e agora está de volta para o seu coração, lá de onde ela veio e de onde ela se perdeu por seguir dançando com as expectativas e promessas alheias, apertando lá dentro todos os seus medos e anseios. Agora ela não é apenas uma bailarina, é uma mulher que sabe dançar com a vida, respeitar a si e amar-se.

Por Luiza Rodrigues dos Santos
Texto baseado na música Ciramda da bailarina de Chico Buarque.

Pra fechar com o poema mais bonito:

A bailarina

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá

Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.

Cecília Meireles

http://somdecordemim.zip.net/arch2006-10-08_2006-10-14.html

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Alma artística viva em mim

     Pelas veias da arte mergulhei e alcancei os mais profundos sons que ecoam num oceano de emoções, turbulências e inspirações que animam as suas correntezas. Enxerguei o melhor e o pior de mim e com ela descobri o meu termômetro e o meu signo. Pela arte me transformei em literatura, li todas as pinturas guardadas em meu coração, li meus medos e pesadelos, meus sonhos e desejos. Foi amor à primeira vista. Levei-a ao altar para jurar-lhe amor eterno e nunca mais abandoná-la diante de qualquer circunstância que tentasse nos separar. De alguma forma lhe prometi que nos manteríamos para sempre unidas. Somos um só nesse casamento consagrado. Somos a corporificação do amor sublime, da paz que se instala num final de tarde lilás. Somos a definição do voo leve das aves deslizando no céu azul. Somos o encontro finito do céu com o mar. 

     Por ela me traduzo, me refaço, me amo, me recrio e constituo. Por ela não me abandono, não me perco nem me esqueço. Por ela permaneço viva, colorida, apaixonada, completamente encantada com o que é viver.

      Por ela sofro overdose de amor pelos frutos que consigo gerar. Mas esse tanto de amor quando poupado e encolhido, sem se quer exprimido, se explode e se finda numa eterna hemorragia, pois sinto um aperto no peito graça às forças que tentam nos separar e me arrojam à apagar o motivo pelo qual eu posso traduzir a minha vida e o que sou. Sem ela, não sou.

     E então me pergunto: mas por que deixar doer aquilo que te traz amor? 

    Minha alma artística quando aprisionada chora e sofre, sente-se desperdiçada. Algo sempre me dizia: Deixa-a correr livre e dançar, deixe-a viver, cantar e gritar "VIVA ALMA ARTÍSTICA, VIVA!".

      Sinto que enclausurada ela sofre e se entristece. Não posso deixar que sua beleza se perca no vazio escondido, por isso manifesto e protesto aqui em nome das almas artísticas perdidas, luto pelo seu direito de serem vistas e respeitadas, não podemos mais deixá-las mortas. Acordem almas!!! Digam não à sociedade dos poetas mortos, sejamos livres pensadores, intérpretes e criadores da nossa arte que faz parte dos nossos sonhos em vida.

     Afinal, o que seria de nós sem a música e a poesia para narrar a chegada das estações e os palpites dos nossos corações? Sem a arte perderíamos a força motriz que nos abriga e nos motiva à admirar e enriquecer a vida.  O que seria de nós sem as tintas? Sem as notas, os timbres e sons que nos circulam em sintonia? 

     Se a arte não falasse seríamos surdos, perdidos no mundo da escuridão, cobertos pelo manto da monotonia, fardados pelo desanimo e pela apatia, bestializados pelo ópio do marasmo. O que seria da arte sem a vida? Qual seria o sabor da vida sem a arte? Parte do nosso instinto de viver é poder expressar a graça de nos enxergarmos internamente vivos, é poder sentir piscar as luzes que nos personalizam como verdadeiros compositores artísticos. 

    Com ela me permito materializar os meus sentimentos, tenho a certeza de que cresço o meu âmago e floresço a minha  imaginação. Com a arte posso fugir do chão como uma pipa quando dança com o vento, posso calar o silêncio lento que provoca a solidão. Posso me refazer, ser, ou não, posso mudar de opinião e até viajar para o espaço. Posso visitar minhas ideias mais loucas, posso viajar para o mundo  fantástico e lindo, posso até inventá-lo e ir embora, é tão bom brincar de "faz de conta". Mas com arte eu também posso acordar e ver as desgraças que ocorrem no mundo real. Ela me alivia por me tirar da dor que por ora sentimos ao encarar a vida, mas ao mesmo tempo me balança e me equilibra pois me traz amadurecimento e autoconhecimento para poder enfrentar meus problemas. Nem sempre é a solução, mas será eternamente o meu caminho pelo qual procuro melhorar o que sou.

     Nasci com arte, cresci com os seus ensinamentos, casei e jurei amor eterno e hoje sou feliz pois detenho a fertilidade para poder reproduzi-la. Somos hoje uma linda família, com ela criei os meus textos e tenho uma coleção de desejos de como pretendo usufruí-la na minha vida. Minha arte, meu amor, meu refúgio e minha morada, se depender de mim, você sera pra sempre amada.


Por Luiza Rodrigues dos Santos

"Eu nunca pinto sonhos ou pesadelos, eu pinto a minha própria realidade" Frida Kahlo


domingo, 27 de setembro de 2015

Pelo direito de fracassar, sofrer e perdoar-se

     Vira e mexe as nossas escolhas nos capacitam na escola da vida e nos demonstram o quão inexperientes somos, simplesmente enganados pela cega soberba e conforto de que está tudo sob controle e domínio de nossas mãos. Não, meus amigos, não está! Afinal, o problema hoje é ter problemas, peço a vocês agora licença para confessar as minhas falhas e dizer-lhes: sou uma eterna problemática. 

     São tantas exigências que acabamos em tantos momentos fraudando os nossos sentimentos e nos paralisando e vitimando quando não encontramos a solução. E aqui está o segredo: nem sempre vamos encontrá-la, que pena, mas essa é uma das únicas certezas que devemos ter na vida! É preciso humildade para reconhecer que nem tudo no mundo foi feito para se entender e ser exato, sábio aquele que não matematiza a vida, que não carrega consigo a índole ostensiva de ser super herói. Que força é essa que nos impulsiona a querer resolver tudo? Aceitar já não é mais necessário, a palavra do século é MUDANÇA, esta hoje é a solução. A paciência e o tempo são coisas ultrapassadas, fincadas nas mentes retrógradas e que hoje encontram-se quase em extinção. Pobre daquele que não acompanha todas as transformações, quem ousa tentar agir conforme um valor tradicional, ou buscar respeitar a dor sentindo-a e não substituindo-a por um conjunto de vazios que ficarão eternamente preenchidos com vários "nadas". Tudo vira moda, se descarta, vai embora e, inclusive, os momentos que necessitamos ter esperança e calma para superar o sofrimento. Caso não queira ser excomungado, mude, ou será julgado como mente do século passado. Coitados daqueles que não se enquadram por não viveram nesta era de relações líquidas e fugaz, momentos descontínuos e superficiais. Hoje é, amanhã não é mais. Adaptação já não faz mais sentido, afinal, o tempo corre e não podemos esperar, obrigar-se a estar de bem com o mundo disfarçar a felicidade é muito mais correto e plausível para se evitar a dor, já que hoje esta tornou-se motivo de vergonha e precisamos a todo momento esconde-la. Assim fazemos por não admitirmos a existência dos problemas  mundanos, assim agimos pela dificuldade que carregamos de respirar o sofrimento, admitir a nossa fragilidade, vulnerabilidade, os nossos erros e a sensibilidade como algo natural, sem a culpa, a tortura e o peso que nos desenquadra de um mundo breve e unilateral. 

     As relações atuais converteram o significado de conquista para domínio, não faz mais sentido se esforçar e dedicar pelo caminho longo da conquista, pois hoje podemos ser mais práticos e falsearmos as nossas falhas e fraquezas para suprir nossas carências e conseguir obter aquilo que queremos, seja mesmo prendendo um outro alguém ao nosso lado pelo egoísmo que suprimos para não olharmos os nossos problemas de frente. Já não conseguimos conviver com a dor, não suportamos o seu ardor e nos escudamos de qualquer mal que possa nos atingir. Extinguiu-se o direito de sentir medo, sofrimento, tristeza, ansiedade, dispersão e conflitos. Devemos todos obrigatoriamente estar sorrindo para sermos tolerados. Para tudo hoje existe uma solução, ou uma medicação. Ou não? E daí surgem as mais estúpidas e avarentas ideias que podemos imaginar, chegando a nos impulsionar ao fio da morte, às desgraças mais absurdas que procuramos para nós confortar, buscando flashs de alegria nas drogas e nos vícios mais banais que transformam a nossa vida em um lixo por não sabermos aceitar os nossos vazios, a nossa dor e a nossa solidão.

     Insistimos sempre no mesmo questionamento: Por que eu mereço isso? Esquecemo-nos, no entanto, da importância dos sacrifícios, sacro ofícios, para alcançarmos a tranquilidade da consciência de missão cumprida e ao estado da felicidade de que obedecemos todas as etapas, respeitamos os degraus, cansamos, desistimos, fracassamos e por fim vencemos, pois nos perdoamos, afinal, tentamos e vivemos. A vida por si só já é um milagre e, assim, com esta passagem é que conseguimos nos despedir dela em paz.


Por Luiza Rodrigues dos Santos

Tudo tem seu apogeu e seu declínio... 
É natural que seja assim, todavia, quando tudo parece convergir para o que supomos o nada, eis que a vida ressurge, triunfante e bela!... 
Novas folhas, novas flores, na infinita benção do recomeço!

Chico Xavier

domingo, 6 de setembro de 2015

Na contramão das etiquetas sociais

Certa feita, sentada numa mesa de bar conversando com uma amiga, entretida com suas histórias e aventuras de uma intercambista quase-alemã estávamos  naquela conversa vai, conversa vem até que nos deparamos com a seguinte questão: qual a relação que construímos com o nosso corpo? Penso e estranho as diferentes formas reducionistas de relação e visão que o ser humano constrói com o seu próprio corpo sejam elas opressivas, promíscuas, exóticas, eróticas, odiosas ou até as naturais... Naturais? Sim! Foi o que respondeu minha amiga diante da suas experiências vividas país afora. E me pergunto: por que não?! Há sim quem sinta seu corpo interna e externamente em plena sintonia, livre de modelos e conceitos impostos pelas tendências e convenções sociais. Há quem respeite todas as fases e encare as mudanças como a autonomia que vida tem para se firmar e moldar ao tempo. E então nos questionando sobre a realidade em que vivemos em plena capital baiana, diga-se de passagem multicultural, chegamos ao raciocínio de que nos falta a liberdade de poder migrar em diferentes grupos, com diferentes culturas, vestimentas e ideias sem sermos julgadas como desprovidas de personalidade e autenticidade. Prezamos pela nossa autonomia sem precisar vestir isso ou aquilo, assumir determinada identidade ou nos fidelizarmos à determinada ideologia para poder compactuar com ideias e pensamentos que não devem ser restringidos à apenas um estilo e um olhar. Queremos o direito de ir e vir, o direito de desistir e decidir o que vestir independente do que pensamos. Ao agirmos com respeito à nossa liberdade nos despimos dos nossos julgamentos diante das máscaras, capas e panos que cobrem o corpo humano, pois percebemos que o corpo se vincula à mente na mesma proporção em que o pulmão se vincula ao coração, que o esqueleto se liga à cartilagem e que a pele se prende ao músculo. Depois de muito refletirmos sobre o tema percebo que quebrar determinados conceitos e preconceitos não seria um processo de doutrinação mas sim de conscientização e debate contra os rótulos impostos ao longo processo de colonização e opressão sofrido devido às influências morais européias. Não é uma tarefa fácil descolonizar o pensamento da sociedade diante do sentimento de posse e erotização que condicionou-se à carne. É difícil impor a liberdade sem que possamos senti-la na íntegra, da mesma forma que impor respeito sem ser respeitado não faz sentido algum. Viver livre e viver bem é distanciar-se das opressões sociais por um corpo despadronizado, esteja ele exposto ou escondido. E no final do meu desabafo lhe disse: Ah amiga, devo confessar que nessas horas é preciso aperta o F****** e deixar no alerta.

Por Luiza Rodrigues dos Santos

"Tudo está fluindo. O homem está em permanente reconstrução; por isto é livre: liberdade é o direito de transformar-se".
Lauro de Oliveira Lima


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terça-feira, 11 de agosto de 2015

A saudade e as suas fases...

Saudade quando aperta é que nem nó cego que não sabemos nem onde termina ou começa e desfazê-la é uma missão intolerável e penosa, mais que dolorosa, mas necessária. O nó, que as vezes não desata, só se embola dentro de nós, aperta a cabeça, formiga o estômago, congela a garganta, as mãos e o pulmão. São os sintomas mais cruéis que ela nos causa. É a desagradável sensação de querer vomitar a dor e de expulsa-la de nós, porque por dentro ela nos corrói. Saudade é quando nosso coração se contorce e distorce de tanto amor guardado que já não pode mais ser distribuído. Saudade é quando percebemos que o tempo é corrido, que a distância é duradoura e que os dois unidos são desproporcionalmente mal distribuídos na relação tempo X espaço. Saudade é quando estamos cercados de incertezas, vagando pela obscuridade e nos calando com palavras soltas e vãs advindas de um coração adoecido pela falta de alguém. Saudade tem lá as suas fase, mas bom mesmo é quando ela deixa de ser vontade e passa a se tornar felicidade e gratidão pelos momentos vividos. Ruim é a fase que nos sufoca, nos tranca num quarto escuro dentro da nossa solidão. Passada essa fase é que iniciamos um caso de amor com o tempo guardado, as memórias e o cheiro armazenados, a música sentida ou qualquer lembrança que nos faça sentir a graça e esperança de sermos gratos por reconhecermos o quanto fomos felizes. Nesse momento já não aparecem as lágrimas de melancolia pois o peito se preenche de alegria ao lembrar de quem amamos. Não há mais espaço para a dor, o nó foi cortado e em um laço bem bonito a saudade se transformou. Bonito mesmo é ver essa passagem, entender as suas fases e aceitar a nossa dor. 

Por Luiza Rodrigues dos Santos 


Tomara

Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz

E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais...

Vinicius de Moraes 



quarta-feira, 5 de agosto de 2015

"Fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho..."

Há quem defenda com uma tese firme, argumentos "convincentes" e dogmáticos que estar sozinho é o melhor caminho. Convenhamos que tem lá alguns benefícios, nos momentos instrospectivos necessários para conseguirmos nos publicizar e adaptar aos relacionamentos. É verdade que em algum momento precisamos somente de nós, do som que ecoa aqui dentro e em mais ninguém. Mas veja bem, em um bom relacionamento, diga-se de passagem bem resolvido, não se ultrapassa os limites da intimidade instintiva e natural mediante o respeito à liberdade entre ambas as partes. Desnecessária é a solidão que isola, acomoda e nos retira de quem nos ama e nos quer feliz pelo simples egoísmo de nos acharmos melhor sozinhos e que merecemos permanecer assim, sem mais ninguém. Fraca tentativa iludida de nos falsearmos como seres independentes, completamente autônomos e auto-suficientes. É nessa hora que eu olho para o meu ego e digo: meu filho, baixa a bola! Não vou te dar essa ousadia e essa moral! Eu sei que é exatamente por ele que, por vezes, perdemos amores, ganhamos dores, perdemos amizades, familiares e chegamos até a nos perder de nós. Me desculpem, mas eu ainda não alcancei esse nível de emancipação emocional para dispensar o colo de uma amiga, o abraço da minha vó, um cafuné, uma ligação, um carinho na mão... Não, eu não vivo sem isso! E há quem me diga: nossa quanto apego, quanta dependência emocional. Ainda tenho que escutar: isso só pode ser carência! Se for pra depender do amor serei feliz enquanto viver, até morrer, será sempre o meu bálsamo benigno, seja lá qual for a forma que se manifeste, é dele que eu realmente preciso! No fundo, no fundo somos conscientes das nossas fraquezas enquanto um ser social, sabemos que não conseguimos enfrentar a solidão propriamente dita, a maldita que nos aperta dentro de nós. Gostamos de ser lembrados, queridos, abraçados e mesmo aqueles que são um poço de frieza guardam em sua geladeira disfarçada de coração, ou vice versa, o desejo de sentir-se amado. Todos nós sabemos que "amar é um deserto e seus temores", nem mesmo se eu fosse criada com outra espécie que não a humana, não me sentiria bem só. Amar é bom, difícil mesmo é a solidão! E há quem se sinta só a dois, a três, ou em uma multidão. Nem sempre a solidão aparece só, às vezes ela se instala dentro do nós no meio de uma avenida bem lotada, mas o vazio permanece ali, mesmo diante de uma multidão ou "1 milhão de amigos", há que se duvidar. A solidão habita em sorrisos falsos, em risadas desesperadas, conversas vazias, tempos corridos... Cuidado, ela pode estar ao seu lado! Trate sempre de lembrar que quantidade não é sinônimo de qualidade! Odeio essa agonia e melancolia que ela me causa, é como dizia o mestre, "chega de saudade", a realidade é quem sem o amor não somos nada. Ele pode ser silencioso, pode falar baixinho, pode ser camuflado, metafórico, irônico, pode até não ser bonito, fotogênico ou musical. Seja amor, seja ele como for, que assim seja e permaneça! Seja amor, sem favor, por amor ❤️

Por Luiza Rodrigues dos Santos 
05/08/2015

"Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?"

Fernando Pessoa


sexta-feira, 10 de julho de 2015

Confiar

       Posso até estar enganada, mas há quem concorde que vivenciamos um período de crises existenciais nos relacionamentos, sejam eles de vínculo profissional, político ou afetivo, em razão da ressignificação ou insignificância do sentimento de confiança. Eis que me surgem diversas questões: seria esta um estado de consciência ou um título de credibilidade? Exata ou imprecisa? Razão ou emoção? Percepção ou decisão? Onde a encontramos: em si, ou no outro? Seria parte ou o todo? Provém do início, meio ou fim? Há muito o que se questionar e entender para conhecê-la, só tenhamos cuidado para não chegarmos a duvidar da sua existência. Difícil mesmo é enxergá-la após seqüências de decepções e desilusões encaradas ao longo da vida. Difícil de acreditar quando a desmoralização e desvirtuamento tornam-se parte de uma sociedade que insiste em falsificar-se em nome do egocentrismo e das regalias. Difícil, mas não impossível. 

       Sejamos um pouco mais curiosos para buscar entender o que prevalece como mais importante: confiar, ou se fazer confiável? Ser ou demonstrar-se? Será mesmo uma questão de credibilidade? Considero uma via de mão dupla que flui quando a preocupação em não trair é maior do que a preocupação em ser traído, pois quando a preocupação em ser traído prevalecer tenha certeza que não há confiança; quando a hipocrisia submete-se à sinceridade e a integridade preenche-se de fidelidade, assim ela pode existir. No instante em que a verdade prevalece sobre a mentira, quando nos esvaziamos do medo de sentirmo-nos traídos, a confiança nos abriga. Não se revela por meio de meras comprovações e sacrifícios, ocorre em solidariedade, quando os valores próprios sintonizam com o do outro.

       Será que pensamos que erramos ao depositarmos nossas expectativas em algo ou alguém relacionando-as com a confiança? Para aqueles que acreditam que esta seria uma questão de credibilidade, afirmo: depositar expectativas não é um ato de confiar. Se assim fosse, estaríamos descredibilizando-a. Mas por que não? Ou melhor, a pergunta seria: por que nos frustramos? Entender que somos seres falhos nos leva ao amadurecimento de que a confiança é um sentimento inabalável  e não depositado e, simplesmente, desperdiçado. Depositar expectativas é sinônimo de incumbir, acusar, responsabilizar algo ou alguém quando elas não são correspondidas. Você já deve ter escutado a mais pura verdade: ninguém perde o que nunca possuiu. Se perdeu, não sentiu, ou sentiu de forma errada. Será que estamos entendendo o sentindo confiança? Ou melhor, será que sabemos ou aprendemos a senti-la? Acredito que podemos cometer o infeliz erro de confundi-la com a conveniência por estarmos, às vezes, apegados à nos doarmos menos pensando em exigir mais dos outros.

       Seria surreal da nossa parte revoltarmo-nos e apoiarmos-nos na descrença de que não devemos confiar em absolutamente ninguém e em nada na vida, apenas em si. Entendamos que ela é o pivô que harmoniza e concretiza uma relação verdadeira. É lógico que estamos todos vulneráveis às mentiras e à traição, ainda assim, compreendamos que a nossa insegurança não é motivo para bloquear a confiança. Se percebermos a insegurança como um equilíbrio entre a confiança e o seu excesso, passaremos a agir com temperança, seremos responsáveis, seguros, pensaremos de maneira ponderável e cautelosa. Saibamos otimizar os nossos sentimentos, seja ele qual for, e não a suprimi-los, pois assim o aprendizado não fará sentido algum.

       A confiança é livre, mútua e espontânea, por isso precisamos desencarcerá-la quando contaminada por sentimentos como a arrogância, avidez, inveja, intolerância que envenenam o nosso estado de consciência. Entretanto, precisamos mentalizar que a confiança e insegurança andam juntas, embora tenham significados antônimos, são também sentimentos que fazem parte da natureza humana e estes reúnem-se de modo que não se invalidam, mas sim conciliam e equilibram as relações. Contestá-las apenas nos culpabiliza e tortura, pois não se trata de uma imposição e superioridade, confiança e insegurança associam-se com coexistência e coerência. 

       Pensando bem, não precisamos de muitas explicações e orientações já que trata-se de sentimento e racionaliza-lo poderá nos conduzir ao ceticismo e insensibilidade por nos prendermos à comprovaçãos e conceitos. Portanto, encontro todos os meus questionamentos na seguinte frase de Carlos Dummond de Andrade "confiança é ato de fé, e esta dispensa raciocínio".

Por Luiza Rodrigues dos Santos 
10/07/2015

"Um pássaro nunca teme que um galho quebre porque a sua confiança está nas suas próprias asas"